Hiperconectividade e correria da vida adulta levam mulheres a transformar hobbies em aliados da saúde mental

  • 01/09/2026
(Foto: Reprodução)
Hobbies se tornam ferramenta de cuidado com a saúde mental de mulheres Acordar, trabalhar, estudar, arrumar a casa, dormir e repetir tudo mais uma vez no dia seguinte. E no próximo. E no próximo… Cansativo, não é? Mas essa é a rotina de muitas mulheres: uma correria sem fim em que, quando finalmente chega o momento propício para o descanso, elas estão tão exaustas que não conseguem fazer nada ou, pior, sentem culpa por fazer algo "não produtivo". Entre jornadas de trabalho cada vez mais aceleradas, responsabilidades domésticas e a presença constante das telas, encontrar tempo para si tem se tornado um desafio. Por conta da rotina acelerada e da hiperconectividade, atividades antes vistas apenas como passatempo, a exemplo do crochê, corrida, pintura, jardinagem, leitura ou dança passaram a ocupar um novo espaço: o de ferramenta para cuidar da saúde mental. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia A psicóloga clínica Aline Simões explica que, durante a infância e a adolescência, a prática de atividades físicas e hobbies é frequentemente incentivada por pais e pela própria escola. No entanto, ao atingir a idade adulta, a rotina de trabalho exaustiva passa a consumir a maior parte do tempo e da energia das pessoas. "A minha geração [millennial] traz essa carga de romantização do trabalho, de achar bonito estar ocupada, sem ter tempo para nada". É muito comum optar por atividades que exijam o menor esforço possível, como o uso do celular e de redes sociais, após um dia cansativo. Mas, segundo a psicóloga, esse tipo de entretenimento oferece uma recompensa rápida e fácil, e não promove experiências profundas ou satisfação a longo prazo, além de sobrecarregar a saúde mental. Por isso, os hobbies ocupam um lugar importante entre o trabalho e o lazer passivo, por envolverem um comportamento mais ativo e refinado, focado no desenvolvimento de habilidades. "O hobby pode promover divertimento, descanso e prazer, mas não é um prazer passivo, porque a gente está praticando uma habilidade, então acredito ser um hábito muito importante e saudável hoje em dia", afirma a psicóloga clínica. Psicóloga clínica Aline Simões acredita que os hobbies ocupam um lugar importante entre o trabalho e o lazer passivo Arquivo Pessoal Mais do que uma forma de entretenimento, os hobbies têm sido ressignificados como momentos de pausa, autocuidado e bem-estar. Logo, dedicar tempo a atividades prazerosas ajuda a reduzir o estresse, aliviar a ansiedade e fortalecer a sensação de equilíbrio em uma rotina marcada por cobranças e excesso de estímulos. O entendimento é de que dedicar-se a hobbies ativos, como esportes ou dança, força a mente a se manter focada em uma única atividade, além de desconectar o indivíduo de telas e da atenção dividida entre várias coisas, o que proporciona um importante descanso emocional e psicológico. Outro ponto positivo é que os hobbies fortalecem a autoestima e a autoconfiança. 💅 "A autoestima é aprendida e desenvolvida a partir do momento em que a pessoa é reconhecida pelos outros, muitas vezes independentemente do que ela faz, sendo valorizada por quem ela é", explica Aline. 💅 "Já a autoconfiança está relacionada com as ações práticas do indivíduo: 'Tenho autoconfiança em uma habilidade específica, porque fiz aquilo muitas vezes e tive consequências positivas'", complementa a psicóloga. Mas, afinal, como achar tempo e disposição para um hobby? Segundo a especialista, é preciso organizar a importância das atividades do dia a dia. Para isso, ela propõe uma divisão prática em três categorias: trabalho, lazer passivo e hobby. 💼 Trabalho: atividade realizada por obrigação e com um senso de propósito específico, ainda que esse propósito seja essencialmente financeiro. 📱 Lazer passivo: descanso imediato e de baixo esforço, como assistir à televisão, utilizar serviços de streaming ou navegar pelas redes sociais no celular. 🧠 Hobby: atividade escolhida por afinidade e opção, que diverte, mas que também exige algum nível de comprometimento, persistência e desenvolvimento de habilidades. 🎀 Conexão social e sentimento de pertencimento Imagem meramente ilustrativa Júlia Reis/g1 A correria do cotidiano e a hiperconectividade com as redes sociais tornam ainda mais difícil encontrar espaço para experiências que geralmente são escassas na vida adulta. E foi pensando justamente nisso que as psicólogas clínicas Luiza Santiago e Isabella Gregorutti criaram a comunidade feminina Laço Club. O que começou em setembro de 2025 como uma iniciativa para ajudar mulheres rapidamente se transformou em um movimento orgânico que conta com mais de 15 mil seguidoras no Instagram. "Durante nossa trajetória profissional, percebemos uma demanda das nossas pacientes que queriam experimentar um novo hobby, ter uma atividade para chamar de sua, estar em um ambiente diferente, com pessoas diferentes, mas havia ali um receio, uma dificuldade", explica Luiza. Em uma sociedade que exige produtividade e performance, as mulheres são raramente incentivadas a ter hobbies sem um objetivo final. Com isso, o resgate de atividades manuais e criativas surge como um antídoto ao burnout e também aos efeitos de isolamento causados pela pandemia da Covid-19. "O hobby tem um poder transformador, né? E nós também estamos em busca de pertencimento, porque somos seres sociais. Então, se os hobbies puderem ser essa via de reconectar com si e de se conectar com outras pessoas também, penso que isso já vai trazer uma mudança na sociedade e no nosso modo de pensar de forma geral", destaca Isabella Gregorutti. A Teoria do Terceiro Lugar, criada pelo sociólogo Ray Oldenburg, afirma que o ser humano precisa de três ambientes essenciais para manter a saúde mental em dia: primeiro lugar: a nossa casa, considerada refúgio íntimo e privado; segundo lugar: trabalho ou escola, ou seja, um ambiente formal e produtivo; terceiro lugar: espaços neutros de socialização, onde as pessoas relaxam e criam conexões. E é justamente sob a ótica dessa teoria sociológica que a comunidade Laço Club funciona. Afinal, as participantes a veem como o "terceiro lugar". "A gente fica muito feliz de ver que as meninas voltam para participar de outras experiências e continuam querendo fazer parte da comunidade. Acho que gera um senso de pertencimento também, que é muito legal", afirma Luiza. A dinâmica da comunidade feminina é desenhada para favorecer a integração e a conexão entre as participantes. O grupo conta com um Clube do Livro fixo, que costuma se reunir em cafeterias de Salvador. Também é possível participar de experiências como aulas de funcional, pilates, defesa pessoal e boxe, além de oficinas de pintura, cerâmica, bordado e automaquiagem. O público do clube é marcado pela pluralidade e, embora a maioria das participantes seja de Salvador e região, há membros de outros estados e até países. A faixa etária varia de 18 a 70 anos, mas o clube já integrou adolescentes de 16 anos em sessões de cinema e crianças com menos de 10 anos em eventos esportivos e de Dia das Mães. Entre as participantes, estão mulheres que acabaram de se mudar para a cidade, profissionais que buscam escapar da rotina exaustiva do trabalho e pessoas que se afastaram de suas redes de amizade anteriores devido a relacionamentos amorosos. "As meninas falam sobre processos muito pessoais de vida que cada uma passou. Às vezes, dificuldades em relações de amizades anteriores ou então relacionamentos amorosos que fizeram com que elas se fechassem para novas amizades e se distanciassem das suas", comenta Isabella Gregorutti. "Eu acho que é difícil pensar em histórias da Laço que não sejam de transformação. São histórias de mulheres muito corajosas, porque são pessoas indo para eventos sem conhecer outras pessoas. Assim, eu quero conhecer gente nova; eu quero testar uma experiência nova. É sair muito da zona de conforto e, ao sair da zona de conforto, a gente se transforma". O impacto positivo dessas vivências ultrapassa os encontros oficiais. Isso porque as mulheres constroem amizades com outras participantes da comunidade, compartilham dores e felicidades, organizam noites do pijama e até planejam viagens juntas. Para aquelas que se sentem sobrecarregadas ou solitárias, as fundadoras deixam um convite acolhedor e uma promessa: "Você pode até vir sozinha, mas não vai permanecer dessa forma". 💆‍♀️ Não é terapia, mas é terapêutico Livro aberto, hábito de leitura, imagem ilustrativa. Freepik Com 10 anos de existência, o clube Leia Mulheres se tornou uma opção de refúgio para a saúde mental e o compartilhamento de histórias entre leitoras. O grupo promove encontros mensais gratuitos e abertos ao público no Museu de Arte da Bahia (MAB), no Corredor da Vitória, em Salvador. O clube surgiu de um projeto nacional, criado a partir de uma hashtag no Instagram, que incentivava a leitura de escritoras. A mediadora Ilmara Fonseca, única integrante da formação original que permanece até hoje, sentia falta de um espaço como esse na capital baiana. Após entrar em contato com uma das fundadoras nacionais, ela se reuniu com outras mediadoras para estruturar o projeto soteropolitano. O primeiro encontro aconteceu na Livraria Leitura do Shopping Bela Vista, com o debate do livro "Americanah", da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. "A gente fazia o encontro lá, mas não era legal por conta do barulho. Depois de um tempo a gente conseguiu um espaço no museu, que é a nossa casa desde então", explica. Apesar das pessoas entrarem no clube com o objetivo de ler mais, a experiência acaba se transformando em uma rede de apoio e pertencimento. "Não é terapia, nem o objetivo é esse, mas termina sendo terapêutico, porque a literatura traz narrativas que atravessam as vidas das pessoas. As pessoas terminam trazendo as suas próprias histórias, conversando, compartilhando", explica Ilmara. Ela destaca ainda que a curadoria do clube busca manter a diversidade de nacionalidades, gêneros literários e temáticas. O grupo debate desde romances, contos e poesias até obras de não-ficção, englobando autoras negras, indígenas, asiáticas e temáticas como maternidade, relações LGBTQIA+ e monogamia. Para garantir que as discussões fujam do óbvio, as mediadoras leem os livros junto com as participantes e também compartilham suas impresões. "Inclusive, as meninas dizem: 'Ah, eu gosto do Leia [Mulheres] porque eu sempre leio algo que eu não leria, assim, se fosse dentro do meu habitual de leitura'", comenta. Atualmente, a equipe de Salvador é composta por cinco mulheres: Ilmara, Gláucia Ventura, Daniela Nunes, Aline Estrela e Carol. Elas se dividem entre a organização do calendário, a gestão das redes sociais, o contato com o público e o planejamento burocrático. "Eu, sozinha, não faço nada. Estou aqui representando, mas elas, junto comigo, é que são o 'Leia Mulheres'. É um trabalho coletivo", destaca a fundadora. Para facilitar o acesso aos livros, o clube mantém uma parceria com a Livraria LDM, que oferece 15% de desconto nas obras selecionadas e entrega gratuita em domicílio para as participantes. LEIA TAMBÉM: Livro selecionado para inaugurar biblioteca de Dua Lipa foi censurado em escola de Salvador Paisagens paradisíacas, becos e vielas: saiba onde achar a Bahia de Jorge Amado, Itamar Vieira Junior, Luciany Aparecida e João Ubaldo Finalista do Prêmio Jabuti com 'Mata Doce', Luciany Aparecida defende narrativas sobre mulheres fortes: 'Histórias de liberdade' Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. Assista aos vídeos do g1 e TV Bahia 💻

FONTE: https://g1.globo.com/ba/bahia/saudenabahia/noticia/2026/09/01/mulheres-transformam-hobbies-em-aliados-da-saude-mental.ghtml


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